Legenda
Sexta-feira, 6 de Maio de 2011
PRELÚDIO PARA SEXO E SONHO
A virilha verde congestionou-me o sonho. Relentado a par de mim e a voz, o eco. Há corpos de homens, rígidos, para deitar abaixo com uma bola vermelha, corpos, subitamente, numa barraca de feira.
A virilha verde retesou-me o sonho.
Porquanto o horizonte é uma centopeia grande, o mar é uma centopeia grande. Nós uma centopeia emborcada, a arranhar o ar.
Abano-me com um leque de papel amarrotado. Saturo-me de coisas familiares. No Outono, as flores apócrifas, no papel da parede, deixarão zumbir corolas.
A virilha verde sugou-me o sonho.
O sexo da 2ª pessoa induvidada. A alma da 2ª pessoa ambígua é o aberto entre mim e o sangue.
Sangra um lábio ilúcido arpoado no meu. E o silêncio espásmico.
A virilha verde amorteceu no sonho.
Será urgente talhar uma paz apodrecida, a chicote, pelas manhãs nervadas?
Dormiste com as chaminés a fumegar.
Dormi a dar à luz.
Para se defender de nós, a noite estendeu o escudo. Há uma lua apedrejada de mitos e estrelas.
A virilha verde morreu.
Vigília.
Luiza Neto Jorge
Sexta-feira, 29 de Abril de 2011
Quarta-feira, 27 de Abril de 2011
Notas para uma janela vista pelo Rui Miguel Ribeiro
De dentro, as crianças e os navios riem juntos.
Talvez um velho sábio dormitando. Fumando e vendo. Um vestido sentado com muito cuidado. Qualquer mistério insolúvel.
São janelas sem nervos. Sem maquilhagem. Para onde se enviam os segredos de quem ama. Onde se depositam promessas. São janelas que vêem e túmulos para quem as quer. Ou promete amar.
São as janelas de uma casa onde pode habitar a mulher mais pálida do mundo em comunhão com os seus sacramentos.
Uma pequenina flor que nasce efémera revelando já a beleza de alguma morte. A morte é inacreditavelmente rosa. Quase púrpura. São os últimos brincos para enfeitar uma princesa que adormeceu para sempre. Como as cerejas completas.
Talvez eu, se me permitem.
Rosa. Púrpura. Vestido.
Brinco e morte.
Uma janela.
E o poeta é o único visionário.
glu-tai-moto
13 - Das Mulheres
Miguel Martins
13 - Das Mulheres
As mulheres (digo: algumas mulheres) (digo: algumas mulheres, poucas) (digo: algumas mulheres, poucas, e nenhum homem) acalmam-me, tiram-me das minhas circunstâncias. Com o corpo - sexo, pele, boca, mãos -, com a voz, apenas com a presença. Às mulheres tudo me parece possível. Talvez por isso as trate com maior exigência. Quando o não fazem é porque não querem ou porque os homens são umas bestas. Os homens, prosaicamente, não fazem o que não podem, brutos coitados. Às mulheres pode-se e deve-se (e devem-se) exigir o poema permanente. E criar as condições para que não se tenham de preocupar com mais nada para além disso. Só isso permite aos machos (alguns, poucos) fugazes fogachos de poesia. Só isso evitará o quase inevitável: que neste mundo haja mais pedreiras do que prados, mais escaravelhos sobrevivendo à fuligem do que cachorros panando-se na areia. Tirésias, que voltou a ser homem depois de ter sido mulher, ensinou-nos que as mulheres sentem dez vezes mais prazer do que os homens. É por isso, estou certo, que se preocupam menos com o que não interessa. E foi também por isso que com elas aprendi o pouco que sei acerca de prioridades: 1ª o prazer, 2ª o prazer, 3ª o prazer, 4ª o prazer, e por aí fora. Se assim fôr, não nos preocupemos com o Céu - tê-lo-emos alcançado aqui em baixo e Deus e os anjos virão ter connosco.
Miguel Martins
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